Relação Professor-Aluno: o que se espera um do outro?

Vocês já se deram conta de quanto material produzimos para tentar entender nossas relações? Considerando que somos uma espécie social, os relacionamentos interpessoais são essenciais na nossa vida, ainda que na maior parte das vezes, não sejam elementos fáceis de se administrar. Desde revista de fofocas que falam “10 dicas infalíveis para ser uma pessoa agradável”, até pesquisas de Psicologia, sobre a relação mãe-bebê, sobre as relações amorosas, e até mesmo, as pesquisas na área de Educação sobre a relação professor-aluno, que é o nosso interesse e foco deste texto.

 

Antes de entrarmos de cabeça nesse assunto, a gente precisa entender que as relações interpessoais são muito diferentes entre si, mas todas elas dependem das ideias que a gente tem do papel de cada pessoa na relação. Por exemplo, em uma relação de amizade, espera-se que um amigo seja uma companhia agradável para outro amigo, que um amigo seja um pessoa com quem a gente pode contar em um momento triste, que um amigo ajude outro amigo em situações de dificuldade, etc. E essas nossas ideias em relação ao que um amigo deveria ou não fazer que vai pautar nossas atitudes em relação à determinada pessoa, considerando-a um “bom amigo” ou não. No geral, não exigimos exclusividade dos nossos amigos, isto é, não nos sentimos traídos se nosso amigo tiver outros amigos, com os quais sai (com ou sem você), e nós também fazemos o mesmo. Mas essa “regra” costuma não ser igual quando o assunto são as nossas relações românticas, daí, a maior parte das pessoas já começam a exigir um grau a mais de exclusividade e prioridade. Mas o que isso tem a ver com a relação professor-aluno?

 

Tem tudo a ver! Porque a relação do professor com seus alunos é uma relação como as várias que temos em nossa vida. E como já foi falado, as relações se pautam nas expectativas que temos em relação ao papel que cada um deve desempenhar naquela relação (a gente tendo consciência ou não dessas expectativas). Assim como nossas concepções prévias sobre o que é amizade, sobre o que é um namoro, mediam nossas relações pessoais dessa natureza, nossas concepções prévias sobre o que é ensinar, sobre o que é aprender, sobre o papel da escola, vão mediar nossas expectativas sobre a relação que mantemos com nossos alunos (quando se é professor) e sobre a relação que mantemos com nossos professores (quando se é aluno).

 

Muitas dessas ideias prévias podem ser sistematizadas em cinco principais abordagens que a Psicologia (principal ciência de base da Educação) nos apresenta. A primeira delas, a abordagem Humanista (Rogers é seu autor mais conhecido) preconiza o princípio da não-diretividade, que nos fala que o indivíduo deve ser livre para crescer e se desenvolver. Neste sentido, o professor é visto como um facilitador de relações, que possui muita empatia por seu aluno em processo de aprendizagem, em um ambiente de liberdade, democracia e autonomia. Na segunda abordagem, a Construtivista (seu principal autor é o Piaget), o papel do professor é o de provocar a reflexão do aluno, que se desenvolve de forma autônoma. Para esta abordagem, o mais importante não são os conteúdos em si, mas que o aluno desenvolva a capacidade de construir novos conhecimentos. Na terceira abordagem, a Comportamental (Skinner é seu principal autor), o professor é visto como um organizador de contingências, de maneira a tornar a aprendizagem de certos conteúdos e habilidade mais eficazes. O comportamento do professor funciona como estímulos discriminativos para o comportamento dos alunos, assim como estímulos consequentes também. A quarta abordagem é a perspectiva Psicanalítica (seu principal autor chama-se Freud) que prevê que, justamente pela existência do inconsciente há um campo do imponderável na aprendizagem, desta forma, o professor pode abrir mão de atividades excessivamente programadas. A aprendizagem é compreendida como um processo de sublimação da energia sexual, e o professor, por meio de relações de transferência, pode assumir o papel de um “eu-ideal” para seu aluno. Por fim, a última abordagem, cujo autor mais conhecido é o Vigotski,  é chamada de Histórico-Cultural. As práticas socialmente organizadas são o cerne desta abordagem, e e não há como haver aprendizagem sem a mediação provocada pela presença do outro. Entre professor e aluno há uma desigualdade em relação a um determinado conhecimento, que deve ser superada quando esse conhecimento se torna acessível a ambos, e cabe ao professor organizar as condições em que essa aprendizagem acontecerá.

 

Depois desse breve resumão, você deve estar pensando: Nossa! Quanta coisa! Qual é a melhor abordagem então? Eu tenho que escolher uma delas se eu quiser ser professora ou professor? Não… não é bem isso… Sabe quando você diz que não é ciumento, mas não perde a oportunidade de bisbilhotar o celular do parceiro ou da parceira? Muitas vezes queremos ser uma coisa (e colocamos isso no nosso discurso), mas na prática acabamos fazendo outra coisa… Isso sim pode ser um problema, essa incoerência entre discurso e prática. Por isso é mais interessante conhecer um pouco cada uma dessas (e outras) abordagens para que elas nos auxiliem a refletir nossa prática docente, e nos direcionem cada vez mais a uma prática coerente com nosso discurso. Para cada uma dessas abordagens há diferentes aspectos que podem ser considerados negativos, e nenhuma delas é imune à críticas.

 

Quer conhecer mais? Está disposto ou disposta a “um exercício de auto-observação e tomada de consciência sobre a própria conduta na relação com o aluno no processo educativo”? Leia também os dois textos originais que me inspiraram na escrita deste post:

 

Pasqualini, J. C. & Eidt, N. M. (2013). A relação professor-aluno à luz de diferentes abordagens  da Psicologia. Horizontes, Revista de Educação, 1 (1), 25-44.

 

Leite, D. M. (1993). Educação e relações interpessoais. In: Psicologia Escolar. Patto, M. H. S. (Org). T. A. Queiroz, Editor Ltda., São Paulo, 234-257.

Comments